Eram 7 horas da noite, o papai já tinha
chegado da fábrica, tomado banho e mamãe nos chamou a todos para a mesa de
jantar, mamãe era ótima cozinheira:
– Fiz um risoto com camarão como você
gosta, Laudelino.
– Então vamos saborear esta delicia! exclamou papai.
Após o jantar papai disse: “É hora de
assistir o Jerônimo” – papai ligou o rádio. Sentamos todos ao seu redor para
desfrutar daqueles instantes mágicos. Ao lado do nosso herói maior (papai),
iríamos ouvir o seriado de um outro herói, cuja existência era pautada na
defesa dos fracos e oprimidos; nós amávamos o Jerônimo, sua “namorada Aninha” e
o seu “braço direito” na luta contra o mal (o Moleque Sacy). Estava passando o
reclame de um dos patrocinadores do seriado. O jingles era o seguinte:
Melhoral, melhoral é
melhor e não faz mal...
Após o jingle, a entrada (narrada pela voz
do inesquecível Mário Lago) era a seguinte:
– Jerônimo é um nome famoso e querido, não apenas
pelos sertanejos, mas por todos que através do rádio acompanha suas aventuras...
Link do seriado abaixo:
Finalizado o seriado, iríamos para a cama,
mas antes papai chamou a todos e disse:
– Amanhã é domingo e nós iremos passear na
casa do Vartinho; a mulher dele disse estar com saudades de você, Cidinha.
Mamãe
sorriu e falou:
- Eu também estou com saudades dela, gosto muito da Divina, é
uma boa amiga.
Todos na cama, começava a ladainha, toda
noite era assim. Primeiro o Lininho que era o mais velho, depois eu, depois
Liliana. O Laerte era muito novinho ainda e não havia adquirido o costume das “boas
noites”. Começava assim:
Lininho: “Boa noite, pai...”
Papai: “boa noite...”
Lininho: “boa noite, mãe...”
Mamãe: “boa noite...”
Lininho: “dorme com Deus, pai...”
Papai: “dorme com Deus...”
Lininho: “bença, pai...”
Papai: “Deus te abençoe...”
Quando o Lininho terminava eu começava:
Laércio: “boa noite, pai...”
Papai, já impaciente dizia:
– Óh! Ceis querem saber duma coisa – Boa
noite pra todo mundo, dorme com Deus e Deus abençoe. Tá loco, sô, a gente vai
passar a noite toda nessa falação e ninguém dorme... Boa noite.
– BOA NOITE, era a resposta, assustada, de
todos, em coro, inclusive mamãe que era muito submissa ao papai.
Era assim todas as noites. Dá saudades...
Domingo cedo, após o café da manhã, mamãe foi
dando a roupa dos maiores e mandando que se trocassem, pois íamos pra casa do
Vartinho e Divina; os pequenos ela ia trocando, e o papai iniciava a trancar as
portas e janelas enquanto ia apressando-nos: - “vamos logo, gente, não temos todo tempo do
mundo só pra se trocar...”
Todo mundo de roupa domingueira, seguimos
rua Prudente de Morais acima, passamos em frente a casa do meu amigo Dilão,
atravessamos a Av. Portugal e fomos... A casa do Vartinho ficava á umas oito ou
dez quadras da nossa, pertinho da Av. Independência, mas para nós crianças
parecia que era uma viagem...
Ao chegar, vimos o Vartinho e a Divina no
portão já nos esperando. Todos entraram, menos eu...
Eu estava vendo um anjo no portão da casa
vizinha... Era a Clarice. Foi amor a primeira vista. Depois daquele dia, por
muitos e muitos anos fui apaixonado pela Clarice e por muitos e muitos anos eu
a namorei e acredito que ela também me namorou. Foi um namoro assim, daqueles
de criança, que ao olharmos e sorrirmos para a menina e se ela retribuía o sorriso, já
estávamos namorando. Nunca cheguei a conversar com a minha namorada Clarice;
mas como foi bom...