domingo, 15 de julho de 2012

Clarice a primeira namorada aos 12 anos


Eram 7 horas da noite, o papai já tinha chegado da fábrica, tomado banho e mamãe nos chamou a todos para a mesa de jantar, mamãe era ótima cozinheira:
– Fiz um risoto com camarão como você gosta, Laudelino.
– Então vamos saborear esta delicia! exclamou papai.
Após o jantar papai disse: “É hora de assistir o Jerônimo” – papai ligou o rádio. Sentamos todos ao seu redor para desfrutar daqueles instantes mágicos. Ao lado do nosso herói maior (papai), iríamos ouvir o seriado de um outro herói, cuja existência era pautada na defesa dos fracos e oprimidos; nós amávamos o Jerônimo, sua “namorada Aninha” e o seu “braço direito” na luta contra o mal (o Moleque Sacy). Estava passando o reclame de um dos patrocinadores do seriado. O jingles era o seguinte:
Melhoral, melhoral é melhor e não faz mal...
Após o jingle, a entrada (narrada pela voz do inesquecível Mário Lago) era a seguinte:
– Jerônimo é um nome famoso e querido, não apenas pelos sertanejos, mas por todos que através do rádio acompanha suas aventuras...
Link do seriado abaixo:
Finalizado o seriado, iríamos para a cama, mas antes papai chamou a todos e disse:
– Amanhã é domingo e nós iremos passear na casa do Vartinho; a mulher dele disse estar com saudades de você, Cidinha.
Mamãe sorriu e falou: 
- Eu também estou com saudades dela, gosto muito da Divina, é uma boa amiga.
Todos na cama, começava a ladainha, toda noite era assim. Primeiro o Lininho que era o mais velho, depois eu, depois Liliana. O Laerte era muito novinho ainda e não havia adquirido o costume das “boas noites”. Começava assim:
Lininho: “Boa noite, pai...”
Papai: “boa noite...”
Lininho: “boa noite, mãe...”
Mamãe: “boa noite...”
Lininho: “dorme com Deus, pai...”
Papai: “dorme com Deus...”
Lininho: “bença, pai...”
Papai: “Deus te abençoe...”
Quando o Lininho terminava eu começava:
Laércio: “boa noite, pai...”
Papai, já impaciente dizia:
– Óh! Ceis querem saber duma coisa – Boa noite pra todo mundo, dorme com Deus e Deus abençoe. Tá loco, sô, a gente vai passar a noite toda nessa falação e ninguém dorme... Boa noite.
– BOA NOITE, era a resposta, assustada, de todos, em coro, inclusive mamãe que era muito submissa ao papai.
Era assim todas as noites. Dá saudades...
Domingo cedo, após o café da manhã, mamãe foi dando a roupa dos maiores e mandando que se trocassem, pois íamos pra casa do Vartinho e Divina; os pequenos ela ia trocando, e o papai iniciava a trancar as portas e janelas enquanto ia apressando-nos: -  “vamos logo, gente, não temos todo tempo do mundo só pra se trocar...”
Todo mundo de roupa domingueira, seguimos rua Prudente de Morais acima, passamos em frente a casa do meu amigo Dilão, atravessamos a Av. Portugal e fomos... A casa do Vartinho ficava á umas oito ou dez quadras da nossa, pertinho da Av. Independência, mas para nós crianças parecia que era uma viagem...
Ao chegar, vimos o Vartinho e a Divina no portão já nos esperando. Todos entraram, menos eu...
Eu estava vendo um anjo no portão da casa vizinha... Era a Clarice. Foi amor a primeira vista. Depois daquele dia, por muitos e muitos anos fui apaixonado pela Clarice e por muitos e muitos anos eu a namorei e acredito que ela também me namorou. Foi um namoro assim, daqueles de criança, que ao olharmos e sorrirmos para a menina e se ela retribuía o sorriso, já estávamos namorando. Nunca cheguei a conversar com a minha namorada Clarice; mas como foi bom...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Junho, mês de preparações, de esperas, de esperança...


Entramos no mês de junho e logo a Dona Zilda já começou as preparações das festas juninas: Dona Zilda gostava de comemorar todos os santos do mês: dia 13 Santo Antônio, dia 24 São João e dia 29 São Pedro. Era festa o mês inteiro, com muita gente, num misto de religiosidade, festança e comes e bebes; fogueira, batata doce, pé-de-moleque, paçoquinha, arroz-doce, cocada, milho verde assado, canjica, bolo de fubá e o delicioso quentão. Tudo isso preparado a muitas mãos, inclusive da mamãe que mesmo grávida, prestes a dar a luz, ajudou a preparar e servir todos os quitutes nos dias santos. A cada santo que se comemorava a Dona Zilda dizia a mamãe e papai:
- se nascer dia 13, vai se chamar Antônio; passou dia 13, ela repetia: 
- se nascer dia 24, vai se chamar João; passou dia 24, ela disse:
- vai ter de chamar Pedro. Durante todo o mês de junho, depois de tantas festas com rojões, fogueira, quentão... o assunto principal era o nascimento do filho do Sr Laudelino e dona Aparecida (meus pais). Então na véspera de São Pedro, aquela espectativa se confirmava, mamãe começou a ter as dores do parto. Papai chamou o Sr Roque, marido da dona Zilda e disse: "A Cidinha vai ganhar o nenê esta noite ou amanhã, diga pra dona Zilda que nós vamos ficar em casa e a nossa participação na festa de São Pedro será menor". O Sr Roque respondeu: “Laudelino, fique tranquilo, sua esposa já ajudou bastante, os convidados vão estranhar a falta de vocês, mas eu explico a todos que é problema de parto; diga para as crianças continuarem a participar da festança...” Papai e mamãe ficaram recolhidos e nós crianças continuamos nos divertindo:


Pula a fogueira Iaiá - Pula a fogueira ioiô - Cuidado para não se queimar
Pois essa fogueira já queimou o meu amor
O balão tá subindo - Tá caindo a garoa - O céu é tão lindo
E a noite é tão boa
São João - São João - Acende a fogueira
do meu coração
Cai cai balão, cai cai balão - Na rua do sabão
Não Cai não, não cai não, não cai não - Cai aqui na minha mão !
Cai cai balão, cai cai balão - Aqui na minha mão
Não vou lá, não vou lá, não vou lá - Tenho medo de apanhar !

Exatamente no dia de São Pedro mamãe foi levada para o hospital. Pois é, o Pedrinho, digo, o Laerte nasceu nesse clima de festa. Então, pelo gosto da dona Zilda seria Pedro, mas na última hora papai e mamãe resolveram mudar o nome para Laerte. Dona Zilda, que estava cotada para ser madrinha ficou até doente com essa história, pois ela tinha resolvido que seria Pedro. Mamãe e papai viajaram e quando voltaram, o Pedrinho, digo, o Laerte já estava batizado pelos Tios de São Paulo, Geraldo e Iracema. Dona Zilda e Sr Roque como bons amigos e bons vizinhos concordaram que o próximo “rebento” eles batizariam, sem problema.