quinta-feira, 14 de junho de 2012
COMEÇARAM
AS AULAS
PÁGINA 5
Final de férias, início das
aulas, lá fui eu pra escola. Em Mococa eu havia feito o 3º ano primário, agora
1959, já em Ribeirão Preto, eu faria o 4º ano ; na verdade, com 11 anos eu
deveria estar no 5º ano, mas eu havia reprovado no 2º ano.
Cheguei à Escola Doutor Guimarães
Júnior (5º Grupo) uns 15min adiantado, aquilo fervia de meninos e meninas. Dei
uma volta no pátio para reconhecimento, fui ao bebedouro (torneira) e ao
banheiro. Como ainda não conhecia ninguém fiquei parado olhando aquele
corre-corre da criançada; havia um pouco de ansiedade... O sinal tocou, as
professoras pediram silêncio para poder organizar as filas. Todos quietos, a
primeira professora falou para os alunos do 1º ano se enfileirarem em frente a
ela. Assim, todas as professoras dos outros anos também fizeram. Após todos
alunos enfileirados de frente para suas respectivas professoras iniciou-se o
Hino Nacional Brasileiro. Instante cívico. Após o Hino Nacional a professora do
1º ano mandou que seus alunos a seguissem até a classe. A seguir o 2º ano, o
3º, o 4º. Eu era o último da fila e fui o último a entrar na classe.
O 1º dia de aula foi para
apresentações. A primeira a se apresentar foi a professora: uma senhora muito
bonita e simpática, tinha a pele morena e falava macio, tão macio que parecia
música aos ouvidos de menino:
- “Meus queridos, meu nome é
Aparecida, tenho 35 anos de idade e 13 de magistério. Vou dar aulas de
matemática, português, ciências, geografia, história e educação moral e cívica”
- A cada palavra que ela falava eu tinha vontade de ir até ela e dar-lhe um
beijo. Fui me apaixonando por aquela professora; tanto que chegava a desejar
repetir de ano, só pra continuar com ela. Mas, ela era tão boa professora que
não tinha como não aprender...
Chegou a hora do recreio, fomos
todos para o pátio. Como não tinha água nos bebedouros (torneiras) eu e o Nei combinamos:
vamos começar a gritar bem alto AGUA, AGUA, que as outras crianças nos acompanharão no protesto... Dito e feito,
começamos a gritar e logo todas as crianças também gritavam, pois todos queriam
beber água. Não demorou muito e o Diretor mandou que liberasse todas as
crianças. No calor do movimento, um menino trombou comigo, seu rosto bateu em
minha cabeça e ficou vermelho, acho que deve ter doído muito, pois ele ficou
bravo e disse que me esperaria na saída, do lado de fora dos portões da escola.
Todo mundo foi saindo e eu torcia para que naquele movimento de muitas crianças
ele me perdesse de vista. Eu fui saindo e caminhando tranquilo pela rua Lafaiete,
beirando o muro do Colégio Marista, quando o vi:
- Agora eu te pego, seu filho de
puta – disse ele, empunhando uma tesoura velha, com aquela ponta meio
enferrujada, meio brilhante, virada para o meu lado. Tentei desviar dele, mas,
aquela ponta veio em minha direção. A minha reação foi instintiva, estendi as
duas mãos abertas para tentar parar aquela coisa mortífera. Que dor, a ponta
fina entrou na minha mão esquerda, entre o dedo indicador e o médio; o sangue
desceu. O moleque, ao ver o sangue, jogou a tesoura no chão e saiu correndo. O Nei,
que estava á uns 50m de distância, se aproximou assustado e disse:
– segura apertado, com a outra mão,
para estancar o sangue, eu vou te levar na casa do Madalena, ele fará um
curativo, ele é muito bom nisso. A casa do Madalena ficava no final da rua Lafaiete
com Amadeu Amaral. O Madalena realmente era bom naquilo, lavou minha mão com
bastante sabão, depois colocou água-oxigenada e depois iodo; a seguir enfaixou
e colocou, delicadamente, uma tira de esparadrapo. Coisa de mestre. Fiquei
muito agradecido àquele moço de voz educada e afeminada. Quando saímos,
perguntei ao Nei:
– Nei, ele é o quê? – no que Nei
respondeu:
– Bom, uns dizem que ele é
médico, outros, professor, mas eu não sei exatamente.
Eu nunca fiquei sabendo qual era
a profissão daquele moço. Com o tempo, conversando com os meninos do bairro
(Beco das Cabras) fui, aos poucos, descobrindo que toda meninada conhecia o Madalena, e que ele gostava de meninos...
Não sei se afeta o afeto
ResponderExcluirOu se o afeto me afeta,
mas está tão suave que fico esperando o próximo feito.
Abraços