quinta-feira, 21 de junho de 2012

Domingo, Matinê no Pedrão



PÁGINA 6
Domingão, dia de matinê no Cine Pedro II (hoje Teatro Pedro II). Acordei com a mamãe me chamando para ir no bar do Sô João buscar o pão e leite. O bar do Sr João Lopes ficava na Avenida Portugal, quase fazendo esquina com a “nossa rua” (rua Prudente de Morais); papai me deu o dinheiro e lá fui com a sacolinha a tira-colo (borná). Na volta, passando de frente a casa do Dilão, dei uma espiadinha pela fresta do portão e vi meu amigo dando banho no Sultão. O Dilão adorava aquele cachorro pastor-alemão. Decidi entrar um pouquinho:
- oba, tudo bom, Dilão?
- ô Laercio, quer ir comigo na chácara do meu avô, você vai adorar?
- Claro que quero... vou levar o pão e leite pra casa e já volto. É um pé lá, outro cá. Desci pela Prudente até o nº 2101, nossa casa.
Ao adentrar o portão de casa senti o cheirinho do café que a mamãe acabara de coar; ao chegar á cozinha coloquei a sacola de compras na mesa e disse pra mamãe: mãe, eu vô co Dilão na chácara do avô dele. Mamãe respondeu: - pode ir, mas antes tome seu café-com-leite-e-pão. Enquanto comia dei uma olhadinha pela porta dos fundos e vi o papai mexendo na horta de alfaces. Meu pai, meu herói maior, gostava, nas horas vagas e finais de semana, de se esquecer que era gerente de uma das maiores fábricas de bolachas do Brasil: a Mabel - CIPA (Companhia Industrial de Produtos Alimentícios). Ao se esquecer disso voltava a ser, mesmo que em seu imaginário, o filho do imigrante português produtor de verduras na cidade de São Paulo; aquilo fazia muito bem a ele... Gritei, terminando de engolir o ultimo pedaço de pão: - tchau, mãe e pai, to indo na chácara do sô Anibal, vô do Dilão... Papai acenou com a mão e continuou a sua lavra...
Em cinco minutos estava na casa do meu amigo. Dilão, que havia terminado de dar banho no Sultão, já me esperava em frente o portão de sua casa.
- Laércio, nós vamos pela avenida Portugal, pois quero passar na casa do “Chico das Égua” pra combinar a ida à matinê hoje depois do almoço. Lá fomos nós pela av. Portugal, que à época era de terra, ainda. A casa do “Chico das Égua” ficava na Portugal, barranco acima, após a Capela NS Aparecida (do padre João). Enquanto o Dilão entrou pela porteira eu fiquei esperando do lado de fora. Enquanto esperava apreciava as galinhas pastando.
Dilão saiu e fomos rumo à chácara do senhor Anibal. Chegando na chácara, o que mais me chamou atenção foi o mangueirão de porcos, era enorme: todo cercado de tábuas velhas, escuras, aquele mangueirão tinha mais ou menos uns 200 porcos chafurdando na lama misturado com lavagem, espigas de milho, mangas e abóboras maduras; todos roliços e felizes em sua porquice. O cheiro era característico (cocô de porco). Mais acima, o bananal, tinha tanta bananeira como eu nunca havia visto antes, perdia de vista: Tanto verde, tantos cheiros diferentes. O Dilão parou perto de uma bananeira e colheu algumas bananas bem madurinhas. Sentamos em uma pedra e o Dilão me ensinou que devemos comer primeiro as bananas pintadinhas (mais maduras e saborosas). Depois de horas de exploração por entre frutas e banhos em nascentes de águas cristalinas resolvemos encher as nossas camisas com mangas maduras e retornar para casa. Desabotoamos a camisa, fizemos um nó nas duas pontas e enchemos de manga em volta do abdomem, empreendemos a volta para casa. Dilão passou pela “casa” e pediu a benção para seu avô:
- Bença vô?
- Deus o abençoe, Serginho.
Depois do almoço, seguimos para o Pedrão; eu, o Dilão, o Nando (irmão do Dilão) e o Chico das Égua, cada um com seu pacote de gibis nos braços. Fomos pela rua Lafaiete, atravessamos a praça 7 de Setembro e seguimos até a Alvares Cabral, descendo e parando na esplanada do Pedro II, onde já estava fervendo de meninos trocando gibis. É, pois é, depois de ler os gibis durante a semana os meninos tinham o hábito de trocar com outros que ainda não leram. Todos os domingos isso acontecia. Eu, na minha inocência de menino, pensava que este fato ocorreria por todo o sempre. Que pena que acabou... Depois de todo estoque de gibis renovado entrávamos para o cinema. Ah! O CINEMA... que delícia, que felicidade... aqueles seriados, aquela telona... Que saudades...  

quinta-feira, 14 de junho de 2012

COMEÇARAM AS AULAS


quinta-feira, 14 de junho de 2012



COMEÇARAM AS AULAS
PÁGINA 5
Final de férias, início das aulas, lá fui eu pra escola. Em Mococa eu havia feito o 3º ano primário, agora 1959, já em Ribeirão Preto, eu faria o 4º ano ; na verdade, com 11 anos eu deveria estar no 5º ano, mas eu havia reprovado no 2º ano.
Cheguei à Escola Doutor Guimarães Júnior (5º Grupo) uns 15min adiantado, aquilo fervia de meninos e meninas. Dei uma volta no pátio para reconhecimento, fui ao bebedouro (torneira) e ao banheiro. Como ainda não conhecia ninguém fiquei parado olhando aquele corre-corre da criançada; havia um pouco de ansiedade... O sinal tocou, as professoras pediram silêncio para poder organizar as filas. Todos quietos, a primeira professora falou para os alunos do 1º ano se enfileirarem em frente a ela. Assim, todas as professoras dos outros anos também fizeram. Após todos alunos enfileirados de frente para suas respectivas professoras iniciou-se o Hino Nacional Brasileiro. Instante cívico. Após o Hino Nacional a professora do 1º ano mandou que seus alunos a seguissem até a classe. A seguir o 2º ano, o 3º, o 4º. Eu era o último da fila e fui o último a entrar na classe.
O 1º dia de aula foi para apresentações. A primeira a se apresentar foi a professora: uma senhora muito bonita e simpática, tinha a pele morena e falava macio, tão macio que parecia música aos ouvidos de menino:
- “Meus queridos, meu nome é Aparecida, tenho 35 anos de idade e 13 de magistério. Vou dar aulas de matemática, português, ciências, geografia, história e educação moral e cívica” - A cada palavra que ela falava eu tinha vontade de ir até ela e dar-lhe um beijo. Fui me apaixonando por aquela professora; tanto que chegava a desejar repetir de ano, só pra continuar com ela. Mas, ela era tão boa professora que não tinha como não aprender...
Chegou a hora do recreio, fomos todos para o pátio. Como não tinha água nos bebedouros (torneiras) eu e o Nei combinamos: vamos começar a gritar bem alto AGUA, AGUA, que as outras crianças  nos acompanharão no protesto... Dito e feito, começamos a gritar e logo todas as crianças também gritavam, pois todos queriam beber água. Não demorou muito e o Diretor mandou que liberasse todas as crianças. No calor do movimento, um menino trombou comigo, seu rosto bateu em minha cabeça e ficou vermelho, acho que deve ter doído muito, pois ele ficou bravo e disse que me esperaria na saída, do lado de fora dos portões da escola. Todo mundo foi saindo e eu torcia para que naquele movimento de muitas crianças ele me perdesse de vista. Eu fui saindo e caminhando tranquilo pela rua Lafaiete, beirando o muro do Colégio Marista, quando o vi:
- Agora eu te pego, seu filho de puta – disse ele, empunhando uma tesoura velha, com aquela ponta meio enferrujada, meio brilhante, virada para o meu lado. Tentei desviar dele, mas, aquela ponta veio em minha direção. A minha reação foi instintiva, estendi as duas mãos abertas para tentar parar aquela coisa mortífera. Que dor, a ponta fina entrou na minha mão esquerda, entre o dedo indicador e o médio; o sangue desceu. O moleque, ao ver o sangue, jogou a tesoura no chão e saiu correndo. O Nei, que estava á uns 50m de distância, se aproximou assustado e disse:
– segura apertado, com a outra mão, para estancar o sangue, eu vou te levar na casa do Madalena, ele fará um curativo, ele é muito bom nisso. A casa do Madalena ficava no final da rua Lafaiete com Amadeu Amaral. O Madalena realmente era bom naquilo, lavou minha mão com bastante sabão, depois colocou água-oxigenada e depois iodo; a seguir enfaixou e colocou, delicadamente, uma tira de esparadrapo. Coisa de mestre. Fiquei muito agradecido àquele moço de voz educada e afeminada. Quando saímos, perguntei ao Nei:
– Nei, ele é o quê? – no que Nei respondeu:
– Bom, uns dizem que ele é médico, outros, professor, mas eu não sei exatamente.
Eu nunca fiquei sabendo qual era a profissão daquele moço. Com o tempo, conversando com os meninos do bairro (Beco das Cabras) fui, aos poucos, descobrindo que toda meninada conhecia o Madalena, e que ele gostava de meninos...

domingo, 10 de junho de 2012

BANHO DE RIO (PELADO)


PÁGINA 4
Dia seguinte, após o café da manhã, papai já tinha ido para a fábrica de bolachas, mamãe às voltas com afazeres domésticos, eu fui saindo de fininho... tinha subido a rua Prudente de Morais por dois quarteirões, passando pela casa da Terezona (uma senhora espanhola) vi a Terezona estendendo roupa no varal e cantarolando alegre; subi mais um pouco e encontrei o Dilão descendo, junto com uma turma de meninos, correndo. Gritei para ele: Ô Dilão, onde vão com toda essa pressa”, no que ele respondeu: “tamo indo nadar, vem co a gente”. Juntei-me à tropa, correndo também para não ficar prá trás; ao passar por um mangueiral um dos moleques gritou: mija, mija, mijarela, quem não mijar é uma cadela. Parou um, pararam todos. Depois de todos “desaguarem” continuamos a correr. Passamos pela chácara da dona Alzira e logo após, um barranco; descemos o barranco, e ali estava o riacho (futuramente eu saberia que aquele riacho se chamava Córrego Retiro Saudoso). Todos, sem nenhuma cerimônia foram se despindo e pulando na água. Eu, sem jeito, fiquei olhando aquela festa. Admirado e com vontade, mas sem coragem, continuei olhando. O Nando, irmão do Dilão gritou: ô muleque, tira a roupa e pula n’agua. Aquele incentivo era o que faltava. Tirei a camisa, o short, sapato não tinha, e, pulei... Ah! Mas que farra boa...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

PACOTE DE FELICIDADE

PÁGINA 3
Bem, eu tinha, em 1959, onze anos. Com onze anos, cidade nova, pessoas diferentes, eu queria conhecer. O primeiro amigo foi o Sergio  (Dilão), um ano mais velho que eu. Eu e o Dilão tínhamos uma coisa em comum: gostávamos de "gibi"; ele tinha muitos, centenas de gibis. Na sala da casa onde ele morava (rua Prudente de Morais esquina com rua Guimarães Passos), naquela sala havia uma estante enorme, cheia de coleções inteiras: Tarzan, Cavaleiro Negro, Rock Lane, Hopalong Cassid, Mandrake, Fantasma o Espírito que anda, Dom Chicote, Namor o príncipe submarino, Príncipe Valente, Superman e muitos outros. Dilão me deixou à vontade, eu podia ler um, ou muitos. Fiquei extasiado com todas aquelas maravilhas; para mim o mundo era mágico, tanta felicidade ao meu alcance parecia um sonho. Lemos o dia inteiro, só paramos no almoço quando dona Helena, mãe do Dilão nos chamou: "meninos, venham comer, saco vazio não para em pé". Aquela mulher era a bondade em pessoa, sempre sorrindo, nunca a vi triste. Lemos até o anoitecer. Anoiteceu e eu não queria ir embora para minha casa, queria dormir ali, lendo e acordar no outro dia continuar a ler e viver, através dos quadrinhos todas as aventuras que os heróis viviam. Mas a dona Helena, com sua sabedoria, me disse: Laercio, sua mãe deve estar preocupada, vá para casa e volte amanhã. O Dilão não deixou que eu fosse de mãos vazias, pegou um paco de gibis (uns vinte), colocou em minhas mãos e disse: "volte amanhã". Eu peguei aquele paco de felicidade e fui...