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Domingão, dia de matinê no Cine
Pedro II (hoje Teatro Pedro II). Acordei com a mamãe me chamando para ir no bar
do Sô João buscar o pão e leite. O bar do Sr João Lopes ficava na Avenida
Portugal, quase fazendo esquina com a “nossa rua” (rua Prudente de Morais);
papai me deu o dinheiro e lá fui com a sacolinha a tira-colo (borná). Na volta,
passando de frente a casa do Dilão, dei uma espiadinha pela fresta do portão e
vi meu amigo dando banho no Sultão. O Dilão adorava aquele cachorro
pastor-alemão. Decidi entrar um pouquinho:
- oba, tudo bom, Dilão?
- ô Laercio, quer ir comigo na chácara
do meu avô, você vai adorar?
- Claro que quero... vou levar o
pão e leite pra casa e já volto. É um pé lá, outro cá. Desci pela Prudente até
o nº 2101, nossa casa.
Ao adentrar o portão de casa
senti o cheirinho do café que a mamãe acabara de coar; ao chegar á cozinha
coloquei a sacola de compras na mesa e disse pra mamãe: mãe, eu vô co Dilão na chácara
do avô dele. Mamãe respondeu: - pode ir, mas antes tome seu café-com-leite-e-pão.
Enquanto comia dei uma olhadinha pela porta dos fundos e vi o papai mexendo na
horta de alfaces. Meu pai, meu herói maior, gostava, nas horas vagas e finais
de semana, de se esquecer que era gerente de uma das maiores fábricas de
bolachas do Brasil: a Mabel - CIPA (Companhia Industrial de Produtos Alimentícios). Ao se esquecer disso voltava a ser, mesmo que em
seu imaginário, o filho do imigrante português produtor de verduras na cidade
de São Paulo; aquilo fazia muito bem a ele... Gritei, terminando de engolir o
ultimo pedaço de pão: - tchau, mãe e pai, to indo na chácara do sô Anibal, vô
do Dilão... Papai acenou com a mão e continuou a sua lavra...
Em cinco minutos estava na casa
do meu amigo. Dilão, que havia terminado de dar banho no Sultão, já me esperava
em frente o portão de sua casa.
- Laércio, nós vamos pela avenida
Portugal, pois quero passar na casa do “Chico das Égua” pra combinar a ida à
matinê hoje depois do almoço. Lá fomos nós pela av. Portugal, que à época era
de terra, ainda. A casa do “Chico das Égua” ficava na Portugal, barranco acima,
após a Capela NS Aparecida (do padre João). Enquanto o Dilão entrou pela
porteira eu fiquei esperando do lado de fora. Enquanto esperava apreciava as
galinhas pastando.
Dilão saiu e fomos rumo à chácara
do senhor Anibal. Chegando na chácara, o que mais me chamou atenção foi o
mangueirão de porcos, era enorme: todo cercado de tábuas velhas, escuras,
aquele mangueirão tinha mais ou menos uns 200 porcos chafurdando na lama
misturado com lavagem, espigas de milho, mangas e abóboras maduras; todos
roliços e felizes em sua porquice. O cheiro era característico (cocô de porco).
Mais acima, o bananal, tinha tanta bananeira como eu nunca havia visto antes,
perdia de vista: Tanto verde, tantos cheiros diferentes. O Dilão parou perto de
uma bananeira e colheu algumas bananas bem madurinhas. Sentamos em uma pedra e
o Dilão me ensinou que devemos comer primeiro as bananas pintadinhas (mais
maduras e saborosas). Depois de horas de exploração por entre frutas e banhos
em nascentes de águas cristalinas resolvemos encher as nossas camisas com
mangas maduras e retornar para casa. Desabotoamos a camisa, fizemos um nó nas
duas pontas e enchemos de manga em volta do abdomem, empreendemos a volta para
casa. Dilão passou pela “casa” e pediu a benção para seu avô:
- Bença vô?
- Deus o abençoe, Serginho.
Depois do almoço, seguimos para o
Pedrão; eu, o Dilão, o Nando (irmão do Dilão) e o Chico das Égua, cada um com
seu pacote de gibis nos braços. Fomos pela rua Lafaiete, atravessamos a praça 7
de Setembro e seguimos até a Alvares Cabral, descendo e parando na esplanada do
Pedro II, onde já estava fervendo de meninos trocando gibis. É, pois é, depois
de ler os gibis durante a semana os meninos tinham o hábito de trocar com
outros que ainda não leram. Todos os domingos isso acontecia. Eu, na minha
inocência de menino, pensava que este fato ocorreria por todo o sempre. Que
pena que acabou... Depois de todo estoque de gibis renovado entrávamos para o
cinema. Ah! O CINEMA... que delícia, que felicidade... aqueles seriados, aquela
telona... Que saudades...